Atividades Desafiadoras Para Adultos

Como Organizar Sequências Didáticas
04/01/2019
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Atividades Desafiadoras Para Adultos

Os sujeitos da Educação de Jovens e Adultos são reconhecidos ao trazerem histórias de vida ora semelhantes ora diferenciadas, porém marcadas pelas trajetórias de exclusão social do sistema de ensino, da vida familiar, da afetividade, dos meios culturais e econômicos. Voltar à escola é a possibilidade desses sujeitos resinificarem sua própria vida e estabelecerem novos caminhos. Portanto, ao considerá-los aprendizes ao longo de sua existência, reconhece-se a incompletude do ser humano e as possibilidades de construção do conhecimento de forma contínua e permeada por outros saberes.

O processo de alfabetização das turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) está ancorado em práticas indispensáveis de leitura e escrita que também são desenvolvidas com as crianças das séries iniciais do Ensino Fundamental. Isso não quer dizer que o professor vá trabalhar lançando mão dos mesmos materiais e estratégias com públicos tão distintos. Não faz sentido. Esse é, inclusive, um dos motivos que levam os mais velhos a fracassar e abandonar a escola.

Muitos educadores ainda recorrem aos livros usados pelas crianças. Um dos motivos é a falta de formação específica. A maioria das faculdades de Pedagogia negligencia a EJA e não prepara os educadores para lidar com as especificidades da modalidade. Mas é fato: os estudantes da EJA não são crianças grandes e não podem ser tratados como tal em sala de aula. São pessoas com experiências de vida, já bastante recheadas de saberes. E, ainda que não formais, eles precisam ser levados em conta. Além do mais, usar o material das crianças pode não despertar o interesse desses estudantes. É preciso escolher textos e músicas, por exemplo, que tenham a ver com o mundo desses estudantes e despertem a curiosidade deles, descartando o que é destinado às crianças. “A leitura de mundo precede a leitura de palavras” (Paulo Freire).

Atividades que envolvam poemas, contos e crônicas – entre outros gêneros, reportagens de revistas e jornais sobre temas de interesse deles ou canções que façam parte de suas vidas e que eles gostem – são muito mais adequadas do que as propostas que usam parlendas e histórias em quadrinhos da Turma da Mônica e livros que reúnem contos como Chapeuzinho Vermelho e outros. A seleção dos autores deve ser sempre feita de acordo com os temas que eles abordam – sempre precisam estar conectados diretamente com o mundo adulto – e, é claro, com a qualidade apresentada pelo material escolhido.

Outro fator decisivo para o sucesso do grupo está no discurso do educador. Ele deve conversar constantemente com os alunos sobre as estratégias que adota, expondo os motivos que o levam a organizar as atividades. Muitos deles acham que ditar um texto para o professor não faz sentido e a leitura em voz alta feita por ele nada mais é que uma perda de tempo. O histórico de fracasso escolar também precisa ser levado em consideração – para alguns estudantes, a possibilidade de errar ao ler e escrever amedronta, quando deveria, na verdade, ser encarada como uma etapa natural da aprendizagem.

Em seguida apresentarei algumas situações didáticas de leitura e escrita que no meu ponto de vista não podem faltar em sala de aula. Além disso, há exemplos de materiais a serem usados e sugestões de sequências didáticas, elaboradas a partir de trabalhos no dia a dia, considerando as especificidades dos jovens Adultos e Idosos.

Leitura pelo professor

Momento em que o professor lê para a turma textos diversos (literários, informativos etc.). Os gêneros devem variar para que o repertório do grupo seja ampliado. Além de contos, crônicas e poemas com temática adulta, recorra a reportagens de jornais e revistas. Também é válido organizar audições de leitura de livros literários mais longos, trabalhando capítulo a capítulo. Atribua valor à atividade explicando que a intenção é formar os estudantes como usuários da leitura e da escrita e para isso é preciso vivenciar na sala de aula práticas semelhantes às realizadas fora da escola. Antes de iniciar a leitura, apresente o material a ser explorado. Ao final, retome a conversa, estimulando opiniões e questionamentos sobre o conteúdo.
Essa proposta pode ser apresentada diariamente. Pode-se eleger meia hora no início da aula para essa prática.

Podemos usar contos e crônicas de diversos autores, poemas de autores como Patativa do Assaré e Manoel de Barros, reportagens que abordem temas atuais e de interesse dos cidadãos, como as que tratam do sistema de transporte e ainda livros da literatura brasileira.

Nessa atividade os estudantes aprendem os usos e as funções da escrita, as características que distinguem os gêneros textuais e as diferenças entre a linguagem oral e a escrita. Ele também se familiariza com a linguagem dos livros e jornais, aprende a opinar sobre o que foi lido, a apreciar o escrito e se emocionar com isso e a localizar várias informações.

Leitura pelo aluno

A possibilidade de ler listas ou textos conhecidos de memória. Sabendo o que está escrito, é possível antecipar o que vem a seguir, buscando indícios gráficos por meio do conhecimento das letras iniciais ou finais, que ajudam a refutar ou confirmar sua hipótese. Lembre-se de que nem sempre a situação de ler, arriscando-se a errar, não é confortável para os estudantes dessa modalidade de ensino. Por isso, explique que é lendo – mesmo antes de saber fazê-lo convencionalmente – que se aprende a ler.

Essa atividade pode ser proposta em dias alternados aos de atividades de escrita.
Podemos usar listas como as de pratos para uma festa, a lista de chamada com os nomes dos colegas da turma e de outras salas, de convidados para um sarau, de cantores preferidos e de compras no supermercado. Canções conhecidas do grupo, como Asa Branca, de Luiz Gonzaga e etc., sucessos de Roberto Carlos, Gilberto Gil, Alcione e outros artistas que a turma aprecie. Poemas de autores como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Eles tratam de temas próximos do universo dos adultos e apresentam produções de qualidade.

Produção de texto oral com destino escrito

Situação em que os estudantes ditam um texto e o professor o transcreve no quadro. Eles controlam o que é escrito e acompanham como se escreve. Alguns não participam, pois têm vergonha. Por isso, devem ser feitas perguntas para estimular todos a opinar.
Essa atividade pode ser proposta várias vezes por semana, sempre que houver o uso da escrita.
Podem ser usados textos de referência como cartas publicadas em jornais e cartilhas com informações de saúde.

Com essas atividades os estudantes aprendem como se organizam as ideias de um texto e como se dá a passagem da linguagem oral para a escrita. Ele também compreende o processo de produção textual, incluindo a revisão, e conhece a estrutura e a linguagem do material que está produzindo.

Escrita pelo aluno para aprender a escrever

É a oportunidade de escrever o que é conhecido de memória (como poemas) ou listas (de ingredientes de receitas culinárias). Pelo fato de existirem alunos que acham que a cópia é mais adequada para aprender a escrever ou que não se pode escrever errado, explique que é preciso se arriscar a escrever, colocando em jogo o que se sabe e pensa.
Pode se propor essa prática em dias alternados aos de atividades de leitura.
Para essa atividade, pode se usar textos de referência ou sugeridos nas situações didáticas anteriores.
Com essa proposta o estudante aprende a refletir sobre o sistema de escrita, representar graficamente o que quer comunicar e definir quantas e quais letras usar.

1 Comment

  1. Daniela disse:

    Adorei as dicas.
    Estou iniciando em um projeto de EJA, mi hq vivencia é de Educação Infantil e séries iniciais, as dicas dadas no site me nortearam.

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